terça-feira, fevereiro 13, 2007

Os Homens Amam a Guerra

Guerra

Os homens amam a guerra. Por isso
se armam festivos em coro e cores
para o dúbio esporte da morte.

Amam e não disfarçam.
Alardeiam esse amor nas praças,
criam manuais e escolas,
alçando bandeiras e recolhendo caixões,
entoando slogans e sepultando canções.

Os homens amam a guerra. Mas não a amam
só com a coragem do atleta
e a empáfia militar, mas com a piedosa
voz do sacerdote, que antes do combate
serve a hóstia da morte.

Foi assim na Criméia e Tróia,
na Eritréia e Angola,
na Mongólia e Argélia,
no Saara e agora.

Os homens amam a guerra
E mal suportam a paz.

Os homens amam a guerra,
portanto,
não há perigo de paz.

Os homens amam a guerra, profana
ou santa, tanto faz.

Os homens têm a guerra como amante,
embora esposem a paz.

E que arroubos, meu Deus! nesse encontro voraz!
que prazeres! que uivos! que ais!
que sublimes perversões urdidas
na mortalha dos lençóis, lambuzando
a cama ou campo de batalha.

Durante séculos pensei
que a guerra fosse o desvio
e a paz a rota. Enganei-me. São paralelas
margens de um mesmo rio, a mão e a luva,
o pé e a bota. Mais que gêmeas
são xifópagas, par e ímpar, sorte e azar
são o ouroboro- cobra circular
eternamente a nos devorar.

A guerra não é um entreato.
É parte do espetáculo. E não é tragédia apenas
é comédia, real ou popular,
é algo melhor que circo:
-é onde o alegre trapezista
vestido de kamikase
salta sem rede e suporte,
quebram-se todos os pratos
e o contorcionista se parte
no kamasutra da morte.

A guerra não é o avesso da paz.
É seu berço e seio complementar.
E o horror não é o inverso do belo
-é seu par. Os homens amam o belo
mas gostam do horror na arte. O horror
não é escuro, é a contraparte da luz.
Lúcifer é Lubel, brilha como Gabriel
e o terror seduz.
Nada mais sedutor
que Cristo morto na cruz.

Portanto, a guerra não é só missa
que oficia o padre, ciência
que alucina o sábio, esporte
que fascina o forte. A guerra é arte.
E com o ardor dos vanguardistas
frequentamos a bienal do horror
e inauguramos a Bauhaus da morte.

Por isso, em cima da carniça não há urubu,
chacais, abutres, hienas.
Há lindas garças de alumínio, serenas,
num eletrônico balé.

Talvez fosse a dança da morte, patética.
Não é . É apenas outra lição de estética.
Daí que os soldados modernos
são como médico e engenheiro
e nenhum ministro da guerra
usa roupa de açougueiro.

Guerra é guerra!
dizia o invasor violento
violentando a freira no convento
Guerra é guerra!
dizia a estátua do almirante
com a boca de cimento.
Guerra é guerra!
dizemos no radar
desgustando o inimigo
ao norte do paladar.

Não é preciso disfarçar
o amor à guerra, com história de amor à pátria
e defesa do lar. Amamos a guerra
e a paz, em bigamia exemplar.
Eu, poeta moderno ou o eterno Baudelaire
eu e você, hypocrite lecteur,
mon semblable, mon frère.
Queremos a batalha, aviões em chamas
navios afundando, o espetacular confronto.

De manhã abrimos vísceras de peixes
com a ponta das baionetas
e ao som da culinária trombeta
enfiamos adagas em nossos porcos
e requintamos de medalha
-os mortos sobre a mesa.

Se possível, a carne limpa, sem sangue.
Que o míssil silente lançado à distância
não respingue em nossa roupa.
Mas se for preciso um banho de sangue
-como dizia Terêncio:-sou humano
e nada do que é humano me é estranho.

A morte e a guerra
não mais me pegam ao acaso.
Inscrevo sua dupla efígie na pedra
como se o dado de minha sorte
já não rolasse ao azar,
como se passasse do branco
ao preto e ao branco retornasse
sem nunca me sombrear.
Que venha a guerra! Cruel. Total.
O atômico clarim e a gênese do fim.
Cauto, como convém aos sábios,
primeiro bradarei contra esse fato.
Mas, voraz como convém à espécie,
ao ver que invadem meus quintais,
das folhas da bananeira inventarei
a ideológica bandeira e explodirei
o corpo do inimigo antes que ataque.
E se ele não atirar primeiro, aproveito
seu descuido de homem fraco, invado sua casa
realizando minha fome milenar de canibal
rugindo sob a máscara de homem.

-Terrível é o teu discurso, poeta!
Escuto alguém falar.
Terrível o foi elaborar.
Agora me sinto livre.
A morte e a guerra
já não podem me alarmar.
Como Édipo perplexo
decifrei-a em minhas vísceras
antes que a dúbia esfinge
pudesse me devorar.

Nem cínico nem triste. Animal
humano, vou em marcha, danças, preces
para o grande carnaval.
Soldado, penitente, poeta
-a paz e a guerra, a vida e a morte
me aguardam
- num atômico funeral.

-Acabará a espécie humana sobre a Terra?
Não. Hão de sobrar um novo Adão e Eva
a refazer o amor, e dois irmão:
-Caim e Abel
-a reinventar a guerra.


Affonso Romano de Sant'Anna - poeta brasileiro

10 comentários:

Nelson Ngungu Rossano disse...

Este poema é para a madrasta e cortesã Europa e sua companheira América que deixaram milhões de vítimas pisadas, martirizadas
Apedrejadas, excluídas,
extorquidas, estropiadas!

Vai também para a Mãe África que se prostitui, e amamenta com leite negro apenas o senhores do poder!
Que permitiu o massacre no Ruanda,
e que deixa morrer crianças a cada segundo, de fome, sede com o flagelo do H.I.V/SIDA.

Vai para a Ásia que fez nascer o monstro chamado Estaline, e que explora desumanamente seus filhos e onde 200 mil asiáticas, na sua maioria coreanas, foram forçadas a se prostituir para o exército nipónico.

Não esqueçamos a Oceânia, mas precisamente a Austrália onde dizimaram nossos irmãos aborígenes e agora se insurgem contra asiáticos e árabes afirmando-se como "australianos puros"


Eu simplesmente concerto-me nas palavras de Mahatma Gandhi:

"Ao rejeitar a espada, não tenho senão a lâmina do amor para oferecer àquele que investiu contra mim. É ao oferecer-lhe esta lâmina que espero sua aproximação. Não posso conceber um estado de hostilidade permanente entre um homem e outro. Pois, crendo na reencarnação, vivo na esperança que, se não nesta vida humana mas numa outra, poderei cingir toda a humanidade num fraternal abraço.”

Juliana Marchioretto disse...

Infelizmente eles amam a guerra, não há como negar..

beijo

Milene Leite disse...

Olá Nelson!

É com muito prazer que respondo seu comentário, confessando-te que agradeço ao acaso por tê-lo levado até lá e, consequentemente trago-me até aqui!

=)

Tudo aqui traz a sensação de realidade, desde o seu Perfil, até seus textos!
Infelizmente, crueldade, injustiça e preconceito têm sido sinônimo de realidade, não só nos dias de hoje, mas há tempos!

Parabéns pelas suas idéias!
E obrigada por seu comentário!

=)

Passarei sempre por aqui!

Beijos!

Muadiê Maria disse...

Poemas aos Homens do nosso Tempo

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

Hilda Hilst

Escorpiana Explosiva disse...

Acho que não é bem nesse termo meu amigo,prometo que amanha le darei uma resposta mais desente,pois vou dormir se não amanha perco a hora do serviço.


Um abraço.

Milene Leite disse...

Que coisa boaaaa!
=D

Assim como é bem vindo no meu Blog, tenho certeza que também será em minha cidade!

Vejo que você é de Portugal!

Um dia (espero eu bem próximo) também visitarei teu País!
=)

Beijossss!

Milene Leite disse...

Olhaaa!
Então melhor ainda, vai se sentir em casa!

Meu País é maravilhoso, mesmo com todos os seus problemas (qual País não os têm?! =D), temos muita coisa bonita pra mostrar!

Acredito que irá gostar!
=)

E quanto a Lisboa, terei imeeeenso prazer em conhecer!
Conheço um pouco de sua história e partularmente, acho um lugar lindíssimo!

Beijos Nelson!

Escorpiana Explosiva disse...

Talvés seja verdade ou talvés não,isso só saberemos se perguntarmos ao um grupo de Homens que ja foram para guerra.

Pois não deve ser facíl vc da sua vida por um país que nem sabe quem é vc, de onde vc veio,de que familia ...

Pessoas que vam a guerra são aquelas que muitas vezes lutaram por um não,+ receberam um sim.

A guerra ja vem de anos atrás será que essa pessoas pararam pra pensar que poderia existir outra forma de resolver um problema que mexe com todos os pai8ses.

Acho que não essas pessoas resolveram usar a guerra achando que com ela tudo estaria resolvido mas a vida não é assim.

O egoismo dessas pessoas muitas vezes fala + alto dentro de seus corações porque seus corações tem um formado de pedra,tavés seja isto que faça com que eles venham amar a guerra.

Se é que da pra amar uma coisa que tira muitas vidas,meninos que estam começando a viver.

bjo

Maria Thereza Medeiros disse...

Adorei:

..."Os homens amam a guerra,
portanto, não há perigo de paz."

Os homens tem a guerra como amante
embora esposem a paz....

maravilhoso.
Abraços (comprarei seu livro com este poema maravilhoso)
Beijo,mariathereza

Escritora Tânia Barros disse...

A expressäo do real na poesia, assim como o Amor como arma nos tornará, um dia, homens livres de tanto primitivismo?