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quarta-feira, junho 13, 2007

Ausência

Ausência

Falta-me
O norte
Uma estrela
O caminho
Faltam-me os olhos
Com que me olhe
Falta-me a razão
De saber razões
Falta-me o instante
A mão que rasgue
semeie
Falta-me o quê?


Ângela Santos - poetisa brasileira

sexta-feira, março 16, 2007

As Dores do Mundo

Meninos de Rua em Musseques de Luanda

Crianças rotas engolidas pelos esgotos
infectados, lotados de ratos, tentando escapar
dos atos violentos de homens armados e
dos atos obscenos de homens depravados.


Crianças avariadas, tragadas por um
preparado glutinoso, viciadas pela dor,
humilhadas pela cor e, por decreto,
agonizam sob as pontes de concreto.


Crianças esquálidas, desumanizadas pelos
corpos mirrados, pelas cabeças enormes
entre os ombros disformes, cuja imagem
se configura a um espectro da morte.


Crianças traficadas, mortas e mutiladas,
cujos órgãos seccionados são leiloados
a preço de uma inocente vida para serem
implantados nos corpos em busca de vida.


Crianças exploradas sexualmente, incluídas
como apelo principal do turismo sexual para
servirem aos prazeres do turista bestial que
despeja a sua podridão no corpinho virginal.


Crianças escravizadas, exploradas pelos
pais e patrões em troca de alguns tostões
ganhos com mãos, braços, pernas e pés que
se atarão para sempre aos grilhões da servidão.


Crianças, esses seres tão vulneráveis que por
vezes são aviltados dentro dos seus próprios lares,
pois lá, atrás da máscara de proteção, sofrem todo
tipo de agressão por parte do seu guardião.


Crianças que um dia servirão a essa nação
como meretrizes, assaltantes, traficantes...
que ocuparão espaço nas celas e favelas e
continuarão sofrendo todas as dores do mundo.



Edna Oliveira de Sant' Ana - poetisa brasileira
"As dores do mundo (Infância violada): poesia
Salvador, 02 de Abril de 2004."

sábado, fevereiro 24, 2007

Poema da Amante

Amantes

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.


Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até à região onde os silêncios moram.


Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.


Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.


Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.


Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Adalgisa Néri - poetisa brasileira

domingo, fevereiro 18, 2007

Poema de Mulher

veronica_zemanova

Que mulher nunca teve
Um sutiã meio furado,
Um primo meio tarado,
Ou um amigo meio viado?

Que mulher nunca tomou
Um fora de querer sumir,
Um porre de cair
Ou um lexotan para dormir?

Que mulher nunca sonhou
Com a sogra morta, estendida,
Em ser muito feliz na vida
Ou com uma lipo na barriga?

Que mulher nunca pensou
Em dar fim numa panela,
Jogar os filhos pela janela
Ou que a culpa era toda dela?

Que mulher nunca penou
Para ter a perna depilada,
Para aturar uma empregada
Ou para trabalhar menstruada?

Que mulher nunca comeu
Uma caixa de Bis, por ansiedade,
Uma alface, no almoço, por vaidade
Ou, um canalha por saudade?

Que mulher nunca apertou
O pé no sapato para caber,
a barriga para emagrecer
Ou um ursinho para não enlouquecer?

Que mulher nunca jurou
Que não estava ao telefone,
Que não pensa em silicone
Ou que “dele” não lembra nem o nome?


Gisele - poetisa brasileira

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Lua

Pintura de Ivone Ralha

Queria o semblante sereno da lua
com leveza muitas almas tocar
navegar plena nas estrelas
muitas músicas dançar

queria a magia da lua
adormecer nos flocos das nuvens
voar como folhas-plumas
e carícias-flores soprar

queria a inspiração da lua
ao luar te amar
escorregar doçuras-ternuras
nos braços da poesia te encantar...

Maria Thereza Neves - poetisa brasileira

terça-feira, janeiro 23, 2007

O Mundo Está Vermelho

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O mundo está vermelho
Do sangue em nome do ego
Da guerra em nome de Deus
Do sol que foi violado
Do perigo sem castigo
Do figurino do demo
Da tortura do mergulho
De uma conta no especial


Que impere o branco dos lírios
Das pétalas do girassol
Da nuvem que enfeita o azul
Dos flocos de neve nobre
Do vestido da moça bonita
Das penas da ave solta
Na bandeira que tremula
E sossega a alma em Paz!


Lidoka – poetisa brasileira

terça-feira, agosto 08, 2006

Um Sonho

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Vestiu-se de anjo.
Balançou
as asas contra o vento.
Sobrevoou a cidade
feita do ouro e da prata.
Sentou-se numa nuvem
azulada de fumaças
para ver se o tempo
passava na desgraça
dos dias móveis, infinitos
tão tranqüilos e benditos.
E jogou-se no vácuo
Voou de lado para mirar
o Oeste
terra que oferece prazer.
E tornou-se homem
Deixou de ser anjo
Galgou pelos campos
Conquistou seus sonhos
Sentiu-se como Deus
Mas não passava de uma judeu
que com um grito rouco
ergueu-se um pouco
estendeu a mão e
disse que era Adão
O povo inteiro fez
procissão
Já não era um santo
Mas um tal de João
que atravessou com Eros
o umbral da imortalidade
para amar todas as mulheres
Mulheres de todas as cores,
pedaços de céus no universo.
E chegou a madrugada
feita de sonhos,
misturada com luz solar.
Chegou sem arruaças
Lhe acordou sem tombos
Lhe despiu o anjo.
Lhe fez uma fita
a desenrolar-se
E lhe disse o mais
difícil do que fácil.
Quando o dia escapuliu

Maria Félix Fontele – poetisa brasileira

domingo, julho 30, 2006

Vida Não Vivida



Espero o fim da façanha.

O ocaso dos tiranos
a abolição dos mandatos
a bicicleta dos cegos
a vinda do ser biônico.

Espero o fim da patranha.

A supressão dos impostos
a queima das promissórias
a vitória nas diretas
o carnaval em agosto.

Espero o fim dos cucanhas.

Proibição das trapaças
manhãs de falas abertas
a praça para os profetas
o fim dos tecnocratas.

Espero o fim da esperança.

Lara de lemos – poetisa brasileira

quarta-feira, julho 26, 2006

Telha de Vidro

Pintura de Salvador Dalí


Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...


A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...


Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.


Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

Raquel de Queiroz – poetisa brasileira

quinta-feira, julho 06, 2006

Mas Não Demores Tanto


O corpo – dizem – já não será mais o mesmo
em seu reflexo exterior,
mas alguma coisa se diga das cavernas fosforescentes
que navegam a fome do demônio
na hora do seu resplendor

Olha o meu corpo antigo na curva do chafariz ou no leme do navio.
Eu sou um pássaro noturno perturbado.
Eu te ofereço os meus seios muito brancos
numa escada secreta do mar Cáspio.

Alguém falou de um modo descuidado
e as gárgulas de Notre Dame
contornaram os mamilos
como breves e clandestinos fogo-fátuos.

O corpo – dizem – já não será o mesmo,
desesperadamente eu te desejo
enquanto navego rochas subterrâneas
à beira da consciência humana
e o racha da atmosfera interfere na faixa luminosa
bem no centro da tela da televisão que se quebrou.

Porque naquele tempo
o amor era como um príncipe bêbado
e forçosamente hindu
ele era como a voz rouca de Dioniso
fazendo soar as teclas do piano austríaco
abandonado na passarela vermelha
de um carnaval de plumas na rua do Bom Jesus.

Saí pelo ancoradouro embriagada
arrastando candelabros escarlates
no rio de letreiros luminosos
enquanto a chuva batia no bico duro daqueles seios
ardendo sempre de tanto amor.
Todos eram demais e não sabiam
mas quando tu me pegaste forte eu me surpreendi tímida
e até hoje estou fugindo entre palmeiras
pelas estradas líquidas do vinho e do neon.

Digo que continua urgente a ilusão desse momento
acometido de inenarráveis confissões.
Utopia presa na cartilagem úmida,
quando tua boca recobrir o seio
seremos então as duas outras faces
de uma mesma única possessão,
como uma estória colada na outra
enquanto se lambe o lacre da carta escrita na infância
que uma água subitamente morna quase apagou.

Como dizer, sem te estranhar: recusa-me
que a dama nua ao telefone pode estar no transe
a que tanto aspiras sob o vermelho das lanternas
enquanto a chuva cobre os telhados à beira-mar.
Tudo agora se tornou tão urgente
que dói a espera imemorial das bonecas
sobre a madeira escura
imóveis mas não inertes
a aguardar seu número de magia
quebrando a banalidade dos noticiários da televisão.

A blusa de cetim verde tem um decote de princesa judia
assassinada nua em campo de concentração
esplêndido violinista, vamos enlouquecendo devagar.
A blusa de cetim verde deixa entrever a parte morta da carne branca
sob a luz do globo fosforescente
girando sobre os dançarinos
amanhã invisíveis do bar Royal.

Fecha os olhos e pensa no que quiseres
enquanto as mãos e as bocas cumprem roteiros de miragens desérticas,
enquanto eu toco novamente
o meu piano austríaco na calçada do cais
e o mar quase arrebenta as janelas dalinianas do Armazém XIV.

Porque o espírito há-de ser sempre o mesmo
eu desafio a tua preferência
e a blusa de cetim verde sem meu corpo dentro
tem ainda um oceano de lantejoulas
refletindo a vibração da pele
que por alguns momentos a habitou.
Dragão gigante
língua demoníaca
união clandestina
avesso encantamento
abismo vulcânico
onde a partitura se desfez em notas a cobrir a pauta
que guia o violoncelista ao Palácio de Cristal.

Fecha os olhos e beija-me de modo frágil
porque tudo se tornou mais urgente
desde o Museu Serralves e os desenhos rosa do mármore
revelam caminhos recifenses da pele emparedada
sonhando o êxtase da ressurreição.

O teu olhar tem o mesmo brilho de um atirador de facas
enquanto giro na roda sobre mim mesma
dramaticamente presa nas cordas
ao som de Tchaicovski na Abertura 1812.

O teu olhar é como um sino milenarmente gigante
rondando os patamares da Régua até a calçada de Copacabana,
o teu olhar é como um barco viking pedindo enseada
desde os coqueiros do Recife até os verdes pinheiros galegos
que deram sombra ao romance dos meus bisavós.

Sei que hás de vir sob a neve enluarada
conduzindo lanterna no pescoço do cavalo branco
e me tomarás a galope em tua capa de veludo escuro
enquanto no circo abandonado a trapezista continuará dormindo
completamente nua
na jaula dos leões.

Sei que hás de vir ferozmente enfeitiçado
nesse rapto anunciado para cruzar as águas do Capibaribe ao Douro
e dançaremos à luz de um candelabro de sete braços
até o sol secar as sete saias
tiradas ao som de sete violinos
durante as sete noites da encantação.

Mas não demores tanto.
Que amar é a arte
de se fazer presente
e tudo aquilo que precisamos
é de poesia,
loucura e ênfase
no ato heróico de reabrir as portas
da carne mansa que se equivocou.

Que o corpo – dizem – já não será o mesmo
e o que era assédio pode retemperar-se em fuga
e até nós – dizem – não seremos os mesmos
no estranho instante de raio laser
em que chegar sem aviso o prazer da manhã.

Lucila Nogueira – poetisa brasileira

sexta-feira, junho 09, 2006

Sentimento Súbito

Pintura de Malangatana Ngwenya Valente


A Cícero Belmar

Porque você nada sabe da insônia
não venha assim desavisado com esse universo de frases protocolares
e toda uma higiene pasteurizada de ternura
cuidado e não se aproxime demais
existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda
e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar em tudo
estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito

a água que lavou as letras da biblioteca
é um sinal de que o amor e a palavra exigem renovação
que tanto estudo não resolve o desamparo
e que continua desabitada a casa que sou

finjo-me autobiográfica e renasço como personagem
espasmo de eletrochoque eu sirvo o meu senhor
ducha de eletricidade eu sirvo o meu senhor
e basta o seu tom de voz ser um pouco menos terno
que eu já sinto dor

como quem escolhe uma salada de rúcula
em um cardápio de veludo escuro
você está sentado numa poltrona de aço
que já começa a ser engolida
pelo mar vulcânico da minha loucura

não sei porque tudo vinha tão vagarosamente de modo calmo
e de repente foi aquele estalo aquele sobressalto
e você não entendeu nos intervalos de linguagem
o meu jeito pelo avesso de cantar um blue

você não entendeu nada
você não percebeu que eu sou um fósforo apagado
esquecido na fuligem com memória do passado
que a vida cai pesadamente em meu cabelo azulado
e para a tela grande perder o colorido basta uma pilha se gastar

por isso eu chego a ti numa bolha de sabão gigante
soprada no canudo de mamoeiro do quintal da infância
onde aprendi a noite o sol os cristais coloridos e as músicas ciganas
daí que basta você me tocar e eu retorno à vida
quebra-se o encanto e o feitiço
e saio para a realidade carne que se desprende das páginas do livro

escrevo sobre a vida como um exorcismo
não tenho remorso do que vivo
o meu poema é o sinônimo da minha pele exposta
na implosão do muro de Berlim dos sentimentos físicos

sinal vermelho
rostos vazios
caminhei coberta de sargaços na avenida
como um insignificante alfinete atraído por um imã
e perdi o sono perambulando nos telhados
á procura das palavras mais precisas
quando finalmente descobri que o que importa mesmo sempre está implícito

e agora
eu só quero que você ouça minha voz subterrânea
ecoando muito além de toda superfície
mesmo que em mim nada esteja a salvo
quero que observe com perplexidade como eu tenho estilo
e a melancolia dos meus olhos claros
atravessa nervosamente o cosmos como um neutrino
argila submarina de abalos sísmicos na manhã de uma rua vazia de domingo

hoje falta-me companhia para sair e beber um vinho
nada acontece e eu não sei como faço para manter-me viva
nada acontece e eu fico inerte sem regresso nem partida
devo mudar uma vida que já não me serve
mas ando muito cansada de ser sempre eu a tomar todas as iniciativas

você não entendeu nada
e eu estava dizendo apenas na verdade
que subitamente eu fui ficando perturbada
você me lê somente para encontrar suas palavras
mas eu venho de uma raça de saltimbancos e acrobatas
e brilham relâmpagos da tempestade nos meus gestos delicados

o meu corpo flutua como sílabas de imagens congeladas
e nessa opressão desarticulada decido desesperadamente ficar calada
mas não esqueço o convite para ver as estrelas num deserto do Marrocos
nem a minha estranha fuga automática daquele mundo cor-de-rosa entre penhascos
para voltar aqui e ficar sempre à espera do destino e do a acaso
sentinela do nada

e a vida passa como as nuvens na janela
da próxima vez eu vou ter mais cuidado
porque das outras sei que estraguei tudo

só por ter medo de encarar a realidade

eu vou telefonar
depois a gente se fala
agora eu não posso acordar
entenda que eu carrego a saudade das aves migratórias
que sobrevoam os alpinistas do círculo polar

porque você nada sabe da insônia
e existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda
e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar e em tudo
estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito

Lucila Nogueira – poetisa brasileira

sexta-feira, abril 21, 2006

Dádiva

Ilustrações de Ivone Ralha



Quisera ofertar-te
o vôo dos pássaros,
o momento do nascimento,
o segundo antes do beijo,
o sonho que precede o adormecer.

Quisera entregar-te
os olhos baços,
o arrependimento,
o leite de cada seio,
o pôr-do-sol e o amanhecer.

Quisera dar-te
as quatro estações,
as cerimoniosas fases da lua,
a Vênus de Millus inteiramente nua,
a neve caindo ao alvorecer.

Quisera doar-me a ti por inteiro,
pela eternidade do instante,
colher-te os frutos,
semear-te os versos
e cantar-te o amor
[que sinto].

Quisera, apenas quisera,
acompanhar-te, em silêncio, pela vida,
calar as vozes que perturbam teu sono,
deitar-me à tua sombra
de frondoso tronco.

Quisera fazer-te brisa e flor do campo
e deixar que despertasses
com meu nome nos lábios
- única palavra em teu vernáculo -
a me sorrir, presente.


Lílian Maial - poetisa brasileira